terça-feira, 12 de junho de 2012

Psicologia - Amor e Ego



Antes da filosofia dar os primeiros passos na Grecia a partir do século VII a.C., a palavra do poeta era considerada a única verdade. Sua capacidade de contar um acontecimento passado era algo divino, maravilhoso. Corresponderia à capacidade de alguém, hoje em dia, poder fazer afirmações acerca do futuro. Fica difícil imaginar a potência da poesia nesses nossos tempos de primazia técnica, científica, objetiva. Não pretendo criticar a racionalidade como a conhecemos no ocidente, mas sim falar do lugar deixado para a poesia, o mito, o inconsciente, a luz lunar. Jung sempre apontou a dissociação do homem ocidental que perdeu o contato com sua alma, com sua subjetividade, para desenvolver o discurso técnico, que nos deu os antibióticos, as viagens espaciais e os antidepressivos.

Esse crescimento desigual gera consequências. Hoje, grupos humanos com grande avanço técnico convivem com aqueles que se regem pela tradição e pelo mito. E esses últimos, questionados por esse contato, reagem muitas vezes de maneira violenta, já que seus valores são desrespeitados, o costume é ofendido, o trabalho perde seu valor. O desespero, que pode ser medido pela escalada dos atos terroristas, tem sido a resposta possível. O ocidente, em sua fome de progresso e maximização de recursos responde com guerra. A dissociação ocidente-oriente, ou, sob esse ponto de vista, discurso mítico poético versus discurso técnico científico, se aprofunda e se cristaliza. Nem sempre existiu esse hiato entre mito e ciência . Mas é difícil permanecer entre os dois polos. Estamos imersos na cultura ocidental e, portanto, tendendo à compreensão objetiva, à ação imediata e curativa da alma. Repito, não é o caso de atacar o discurso técnico mas sim de evidenciar o mito, destacar sua importância. Reconhecer a razão que tem o mito contra o mito da razão.

Toda a psicologia que considera o inconsciente está convocada por esses tempos atuais. Isso porque a psicologia profunda está localizada neste interregno entre consciente e inconsciente, tendo que construir uma ponte entre o discurso técnico fabricante de ciência e o mito raiz, mão estendida ao inconsciente. Neste quadro, acredito que a psicologia analítica se incline, mais do que qualquer outra, em direção ao mito. Os conceitos junguianos necessitam, e muito, do discurso poético para serem compreendidos. A defesa que Jung faz da amplificação dos símbolos pode ser compreendida como uma defesa do discurso mítico poético, e seus conceitos estão marcados por essa escolha. Hillman afirma que a poesia é a linguagem da alma.

Leminski afirma: Mito, filosofia, ciência. O mito é um dos explicadores. O mais antigo, donde os outros saíram. Mas não é uma forma superada. / Um mito não se supera. / A Física de Ptolomeu ou a Química de Lavoisier podem ser superadas. / O mito de Édipo não pode. / Ele é o que foi, e assim será, para sempre. / Como todo mito, é uma leitura absoluta das essências. ( 9, pg.70) Reservar e manter um lugar para o mito, que neste texto igualo ao discurso poético, e respeitar sua dinâmica própria, é uma tarefa árdua. O ato de fazer poesia e buscar essências exige muita energia como pode-se perceber pelo poema: um bom poema / leva anos / cinco jogando bola, / mais cinco estudando sânscrito, / seis carregando pedra, / nove namorando a vizinha, / sete levando porrada, / quatro andando sozinho, / três mudando de cidade, / dez trocando de assunto, / uma eternidade, eu e você, / caminhando junto (11, pg. 9) Leminski chega mesmo a dizer que é necessário existir uma reserva ecológica sem porquê, sem um pensamento articulado que vise um resultado prático. É como se a poesia, em nossos tempos, precisasse de proteção por meio da instituição dessa reserva ecológica (7, pg.18) Um diálogo criativo entre os discursos poético e técnico só é possível a partir do respeito mútuo.

Como é difícil fazer sentido de algumas experiências que a vida nos impõe! Mas essa busca é o que mantém a bandeira da vida desfraldada. Jung afirmou em diversas passagens que o si-mesmo é o arquétipo que incita à busca de um sentido para nossos atos e existência. Quando perdemos o sentido é como se murchássemos. Tudo fica parado, a libido estanca. Se o si-mesmo se expressa como único ou múltiplo o que implicaria monoteísmo ou politeismo é, nesse momento, uma questão acessória. São os ventos da alma que determinam o ponto de vista com o qual o si mesmo será percebido, seja como único ou múltiplo, seja repressor ou libertário.

Quem pode dizer que conhece o rosto real e os desígnios da divindade? O importante é existir um sentido a ser descoberto, esteja ele em Alá ou nos os orixás como Leminski assinala. Acredito ser a individuação, a busca do sentido, um dos conceitos que caracterizam o pensar junguiano. Leminski compartilha a visão acerca da necessidade do sentido: “O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo. / Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos. / O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir. / Me recuso a viver num mundo sem sentido. / Este anseio/ensaios são incursões conceptuais em busca do sentido. / Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação. / Só buscar o sentido faz, realmente, sentido. / Tirando isso, não tem sentido”. (13, pg. 256)

O conceito de individuação, a busca do sentido que faz sentido, está magistralmente colocado frente ao si-mesmo, que é compreendido como algo dinâmico, que se revela por meio da relação entre a consciência e as vivências. Fundado por essa relação e no decorrer dela se dá o processo de individuação, que exige um esforço por parte do ego para mantê-lo, o opus contra naturam dos alquimistas reafirmado por Jung. Esse esforço nem sempre está disponível para o ego ou para a consciência.

Com bom humor, Leminski descreve essa situação: eu ontem tive a impressão / que deus quis falar comigo / não lhe dei ouvidos / quem sou eu para falar com deus? / ele que cuide dos seus assuntos / eu cuido dos meus (6, pg.54) Não dar ouvidos a um chamado do si-mesmo veiculado pela anima pode ser desastroso. Mas não é necessário pensarmos em uma situação limite. Pode-se relacionar esse poema a situações mais cotidianas nas quais nos entregamos à preguiça, ou ao mundo exterior. Olhar sempre para a alma, para o “nada que tem peso”, pode ser muito desgastante e se tornar, também, uma obsessão. Corre-se o risco de ficar doente. Não olhar nunca para a alma não é o oposto de olhar sempre.

A síntese, sempre a síntese é o ponto de fuga. Em outro poema, que remete ao mesmo tema de outra maneira, Leminski diz: INCENSO FOSSE MÚSICA / isso de querer / ser exatamente aquilo / que a gente é / ainda vai / nos levar além (6, pg. 93) Que além é esse? Nessa estrada da individuação não existe olhos de gato, faixas pintadas no asfalto ou guard rails...existem símbolos enviados pelo inconsciente na medida em que os esforços do ego sejam sentidos - reverberados pelo si mesmo. Ou então o si mesmo inicia o processo e produz símbolos que, para o ego, podem vir a fazer sentido. Acho difícil fazer afirmações acerca do si mesmo. Prefiro encará-lo como um mistério. Algo que harmoniza o bem absoluto e o mal absoluto está muito distante da experiência humana. Esse arquétipo pode aparecer como quiser e onde quiser. Como um deus único nos monoteismos, ou com muitas faces.

Mas como poder-se-ia reconhecer a conscientização do si mesmo? Escutemos Leminski: ÓPERA FANTASMA / Nada tenho / Nada me pode ser tirado. / Eu sou o ex-estranho, / o que veio sem ser chamado / e, gato, se foi / sem fazer nenhum ruído. (11, pg. 66) Me parece que esse poema descreve um modo de entender o papel do ego na psique. Ele é um estranho, cercado por realidades alheias com as quais tem de manter contato e se entender. Mas existe a possibilidade de deixar tudo isso para trás e, gato, ir. Tornar-se um ex-estranho, portanto, um conhecido, ou reconhecido. Outro poema, que é como uma continuação deste, aprofunda o tema: O EX-ESTRANHO / Passageiro solitário / o coração como alvo, / sempre o mesmo, ora vário, / aponta a seta, sagitário, / para o centro da galáxia (11, pg.79) Surge a metáfora do centro, unida à do coração. Ocorre a identificação entre o centro humano (coração) e o centro cósmico, arquetípico (galáxia).

A unilateralidade necessária para o início e a manutenção do processo de individuação se amaina. Pode-se entrever o final da tensão entre o ego e o si mesmo, ou seja, a aceitação de Moira, do destino que cabe a cada um de nós. Quando conseguimos entender, todos os segredos de nosso ego e quando conseguimos compreender a conexão entre ego e psique, para podermos harmoniza-los nunca seremos escravizados pelo amor, ou pelo que achamos que seja amor.

Só quando o homem consegue entender que nós somos seres individuais é que poderemos perceber que ninguem é propriedade nossa. Só podemos querer um retorno, uma reciprocidade e uma correspondencia de alguem que amamos, quanto isso vier naturalmente e espontaneamente sem coação nem obsessão. Ao sentirmos que o amor não se faz presente mais, devemos tentar encontrar um outro, ninguem está de forma alguma obrigado a nos amar a nosso bel prazer, se queremos ser livres temos que compreeder que os outros tambem tem o mesmo direto.
Carlinhos Lima - Astrologo, Tarologo e Pesquisador

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