sexta-feira, 13 de junho de 2008

A Divisão do Horoscopo - 1


A Divisão do horóscopo em 36 decanatos parte 1

Na astrologia contemporânea, o sistema de divisão por decanatos tem sido utilizado, em termos práticos, por um número reduzido de astrólogos, apesar do revival promovido por entusiastas da astrologia antiga e medieval. Não há, porém, uma tradição empírica confiável que demonstre, de alguma forma, que essa subdivisão de cada signo zodiacal em três segmentos de 10 graus de arco indique correlações válidas com o comportamento humano e com fatos sociais de ordem política, econômica ou relacionados a fenômenos naturais de grande impacto. Infelizmente, como é costume entre certos profissionais, a avaliação sistemática de uma determinada técnica é o que menos conta, é o que menos importa. Basta acreditar que funciona. Basta que seja fascinante.

Embora estando fora do mainstream da astrologia praticada atualmente, nem por isso o sistema de decanatos deixa de ser um tema importante, especialmente pelo significado histórico que possui e pelas lições que dele podemos extrair. Em suas origens encontramos implicações das mais relevantes para a astronomia e para o modo como organizamos o tempo. Se hoje dividimos o dia em 24 horas, devemos este método aos egípcios e aos seus decanos (de onde veio a palavra decanato), ou seja, a um determinado tipo de calendário, ou de sistema hemerológico, em que se utilizavam algumas constelações ou asterismos como referência para o cômputo das horas. Vejamos como tudo isso começou.

Pesquisadores descobriram em pleno deserto do Saara, mil quilômetros ao sul da cidade do Cairo, numa depressão conhecida como Nabta Playa, alinhamentos megalíticos e círculos de pedra erguidos aproximadamente há 7.000 anos. Essas estruturas passam, portanto a ser o mais antigo complexo astronômico-cerimonial da pré-história. Aqui, o que mais nos interessa é que, em cálculos efetuados recentemente pelo astrônomo J.M. Malville, um dos descobridores desse sítio arqueológico, o alinhamento mais longo de Nabta Playa aponta para o nascer helíaco da estrela Sírius, ou seja, o ponto no horizonte leste onde ela aparecia pouco antes do nascer do sol.

Os proto-egípcios estariam interessados nesse tal de nascer helíaco por que simplesmente porque esse fenômeno indicava a primeira aparição anual de Sírius acima do horizonte oriental. Este momento coincidia, aproximadamente, com o solstício de verão e a inundação provocada pelas cheias do rio Nilo. Era o início do Ano Novo egípcio, marcado por festividades que celebravam a fertilidade da terra e a renovação, portanto base para um calendário agrícola e tudo que isto significa em termos de sobrevivência para a população. O ciclo anual era dividido em três estações: Inundação, de julho a novembro; Semeadura, de novembro a março; e Colheita, de março a julho.

Além desse calendário havia outros: lunar, solar e lunissolar. O primeiro povo há dividir o ano em 365 dias, com12 meses de 30 dias e mais 5 dias extras (epagômenos), foram os egípcios, já por volta de 2900 a.C. A partir do Novo Império, conhecemos até os nomes desses meses: Thoth, Phaophi, Athyr, Choiak, Tybi, Méchir, Phamenoth, Pharmouthi, Pachons, Payni, Epiphi e Mesore. A princípio, os egípcios não levaram em conta, porém, a pequena diferença de um quarto de dia que, com o decorrer do tempo, acaba gerando distorções em relação às estações do ano solar verdadeiro, daí este calendário civil ser chamado de ano vago. Vale observar que o nascer helíaco de Sírius coincidia exatamente com o começo do ano civil somente uma vez a cada 1460 anos (ciclo sótico) e, portanto, correspondia a um ciclo diferenciado e mais antigo, como já vimos. Mesmo assim, o ano civil egípcio seria adotado, e adaptado, mais tarde pelo imperador romano Júlio César, passando então a ser usado em todo o Ocidente.

Os Decanos Egípcios

É no período da Décima Dinastia, por volta de 2100 a.C., que encontramos a primeira referência aos decanos em tampas de sarcófagos. Dos 365 dias do ano, 360 eram divididos em 36 semanas de 10 dias. Cada uma dessas semanas ou décadas começava com o nascer helíaco de uma determinada constelação ou decano, que podia ser observada sucessivamente até que no décimo primeiro dia outro decano surgisse pouco antes do nascer do sol, marcando o início da próxima década ou período de 10 dias.

Os decanos serviam também como uma espécie de “relógio estelar”. Observando o surgimento no horizonte oriental de cada uma dessas constelações, logo após o ocaso do sol, o nascer acrônico (momento em que o nascer de um astro coincide com o pôr-do-sol) do primeiro decano correspondia à primeira hora da noite. Aproximadamente uma hora depois aparecia outra constelação identificada como o decano seguinte, início da segunda hora da noite, e assim por diante. Esta dinâmica noturna permitiu a elaboração de um calendário diagonal organizado em 36 colunas de 12 linhas cada. Neugebauer explica como funcionava essa tabela.
As horas decanais tinham, na verdade, a duração de 40 minutos. Teoricamente, seriam 18 decanos para o período de uma noite, mas na prática, descontando o tempo dos crepúsculos matutino e vespertino, apenas 12 eram considerados. A princípio, as horas eram sazonais, isto é, variavam conforme a estação do ano; no inverno, como as noites são mais longas, o primeiro e o último decano tinham maior duração. Mais tarde, no período helenistas, foram introduzidas as horas equinociais, isto é, todas de igual duração, e também o sistema sexagesimal dos babilônios. Chegamos assim ao dia de 24 horas, cada hora com 60 minutos.

As constelações decanais também tinham uma função religiosa e mágica. No século IX a.C. já estavam associadas a divindades protetoras que exerciam influência sobre os homens e igualmente sobre a natureza. Nos monumentos de Seti I e Ramsés IV (1300 a.C e 1700 a.C.), os decanos são representados no corpo de Nut, a deusa do céu. Essas constelações ou asterismos situavam-se ao sul da eclíptica – o plano da órbita aparente do sol na esfera celeste – e apenas duas foram identificadas, Sírius, a estrela alfa de Canis Major, a mais brilhante do céu, que os gregos chamavam de Sothis e os egípcios de Sepdt, e a constelação de Órion.

Além de acreditarem que as estrelas de alguma forma estavam associadas a deuses e deusas – Sírius, por exemplo, estava relacionada à Ísis -, os egípcios também construíram um calendário no qual atribuíam a cada dia do ano um caráter favorável ou desfavorável, seu significado mítico e o comportamento indicado para aquele dia específico.

Os 36 decanos, a intervenção de divindades celestes na vida da terra e a crença em dias favoráveis e desfavoráveis era tudo que os egípcios podiam oferecer como elementos para uma futura astrologia. Aqui não temos sequer uma proto-astrologia, como na Babilônia, com a utilização de eclipses como presságios; aliás, não há sequer registro de antecipação de eclipses, nem tampouco zodíaco. Foi provavelmente no século IV a.C. que apareceu o primeiro documento egípcio – o Papiro de Viena – que trata de presságios envolvendo a lua. Nessa época, porém, o Egito já vinha recebendo inegáveis influências da Babilônia.

Pouco depois de 729 a.C., o Império Assírio invadiu e anexou o Egito. É o primeiro contato sistemático entre essas duas civilizações. Em 539 a.C., a Pérsia, sob o comando do rei Ciro, conquista a Babilônia e o Egito, e mais uma vez as duas culturas se aproximam. Alexandre da Macedônia invade o Egito em 332 a.C. Na primavera do ano 331 funda a cidade de Alexandria e em seguida, em outubro do mesmo ano, derrota Dario III, dominando toda a Pérsia e a Mesopotâmia. Alexandria viria a ser um ponto de encontro entre várias culturas: a matemática, a astronomia e a astrologia da Babilônia; a ciência, a filosofia, a mitologia e a astrologia dos gregos; e a religião, o calendário e a modesta ciência egípcia. O país das pirâmides ainda não conhecia a astrologia, mas foi palco de uma criativa fusão de doutrinas que daria novo alento à ciência dos astros e, particularmente, introduziria a subdivisão dos decanatos no zodíaco babilônico.

Antes de passarmos para a evolução da astrologia na Babilônia, é interessante mencionar um esquema mitológico-astronômico encontrado na Mesopotâmia e que parece guardar uma certa semelhança com os decanos egípcios.
leia a parte 2

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